29 janeiro 2008

A gota de água

Confesso! Não tenho vindo ao blog porque estou bestialmente deprimida e a culpa é desta maldita nova lei do tabaco!
Sim, que isto de uma pessoa se ver, de repente, de um diazinho para o outro, escorraçada para o meio da rua para poder dar uma passa, deixa um veterano do fumo de rastos.
Não bastando isso, nem na rua uma pessoa se sente bem, alvejada pelos olhares fulminantes dos limpinhos do fumo!
Comecei a sentir-me renegada, marginal, malquista pelo povo dominante. Daí à depressão profunda foi um passinho bem curto.
Vingo-me quando chego a casa, local paradisíaco a partir de Janeiro, onde posso espalhar o meu CO2 sem incomodar ninguém.
O problema é que, agora, até tenho medo de abrir o blog, não vá encher-vos a sala de fumo, quando ligarem o computador.
Ainda dizem que não tenho consciência ecológica? Que não penso no bem dos outros?

Seus ingratos!


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Asilada ambiental


Tempos houve em que, para ir a casa da minha mãe, ao domingo, lá tinha de fazer um esforço para sair do aconchego tão saboroso da minha casa.
Mas isso foi antes da lei do tabaco!
Agora, ao domingo, sinto-me feliz logo que me levanto, só de antecipar aquele momento de plena felicidade de poder fumar num local fechado e público. Sim, porque a casa da minha mãe ao domingo é mais frequentada do que muito centro comercial. Só de irmãos e cunhados fica a casa cheia.
Dirão vocês que me lêem que, sendo assim, não deveria fumar. Puro engano! É que a minha velhota, há uns anos atrás, confessou-me toda derretida ao ver-me fumar, que adorava o cheirinho do cigarro. "Gosto muito de ver um homem fumar", disse ela, num aparente lamento surdo contra o facto de ter tido um marido isento desse vício e que nunca deixou que filho seu o carregasse no corpo.
A partir daí soube que o meu cigarrinho lhe suprimia aquelas fantasias e é esse sentimento que me leva a procurar asilo ambiental na casa dela, nestes tempos de crise, de ostracismo social contra este meu maldito vício.
O problema é que, mal pego num cigarro - e a coisa não começou com a lei do tabaco - os meus cunhados e irmãos desatam a pegar comigo.
Mas o que é isto? Já nem a casa da mãe se respeita! Tadinha da minha velhota! Já nem uma passa por intermédia pessoa se pode dar?
Um dia destes peço o estatuto de asilada ambiental... e levo-a comigo!


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Segurança nacional


Ontem, entrei no estacionamento do centro comercial e fui logo atingida por uma vaga poluidora, de fumo e cheiro nauseabundo. Pensei com os meus botões que para ali deveria haver um grupo escondido de fumadores, a tentar dar vazão ao vício. Bem que procurei o grupinho - confesso, na esperança de a ele me juntar - mas nada.
Foi aí que percebi que aquilo era mesmo E SÓ fumo de escapes de automóvel. Ainda olhei para todo o lado, na vã esperança de ver algum membro da ASAE, de medidor da qualidade do ar em punho. Nada!
Vai disto, perante tal poluição, puxei do meu cigarrinho. Mal por mal, com tanta fumarada, ninguém haveria de notar aquele fumito.
Ia acender o isqueiro quando um pensamento me fulminou a mente. Percebi a lógica do Sócrates. Muito mais nesta época de prevenção terrorista. Com todos aqueles gases que se acumulam num estacionamento coberto, acender um cigarro é pior que um atentado. PUM! Explode o prédio todo!
Aí, sim! Compreendi! Fumar num estacionamento público é uma questão de segurança nacional e com isso não se brinca!
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Escolham!
Ando para aqui num dilema visceral, mais precisamente intestinal, por causa desta maldita lei!
A coisa está complicada! Não é que já não me tenha sentido tentada a deixar de fumar. De vez, porque tentar já tentei e não consegui.
É que há outra questão e é essa que me tem feito pensar. É que se deixo de fumar, entro em stress. Se fico stressada lá me vem uma crise de colite ulcerosa. Logo, diarreia à vista!
E é daí que me vem a dúvida existencial: deixo de vos poluir com o meu fumo e passam a gramar o cheirinho da minha poluição fecal, ou não vos poluo por baixo e continuo a fumar o meu cigarrito? Hem? Que preferem? Vá lá! Decidam-se! Mas rapidamente! É que, mesmo fumando, já ando em stress só de pensar nesta história. Não tarda nada, ando aí a borrifar-me para todos. No sentido literal do termo.
Garanto-vos: em pouco tempo estão a pedir-me um cigarro!
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Mas o que é isto, Sócrates?
Ainda há bem pouco tempo sairam para aí uns estudos a dizer que os portugueses andavam a exceder-se no consumo de calmantes. A acreditar no alarde que se fez, nas notícias publicadas sobre a matéria, a coisa parece ter preocupado seriamente o Governo. Fiquei à espera de medidas.
Agora ando baralhada! Vem o Sócrates e decreta o fim do cigarro. Vai disto, toca tudo à procura de consultas de desabituação tabágica. Stressados com a falta da nicotina (e de consultas, diga-se de passagem), não há nada a saber: calmantes para cima, para ajudar a ultrapassar esta fase dolorosa.
Mas, então, em que é que ficamos? Queremos atingir o topo da escala europeia nesta questão? Será esse o grande trunfo do Sócrates para as próximas eleições?
Já consigo imaginá-lo no palanque a sossegar a plebe: "Meus senhores (e senhoras), não conseguimos os 150 mil empregos que vos prometi, mas consegui aumentar o desemprego; conseguimos dar maior qualidade de vida aos idosos mais carentes, aqueles em número ínfimo que preenchem TODAS as condições para conseguir o subsídio social e ainda consegui aumentar a escalada da pobreza; conseguimos, finalmente, lixar ainda mais os jovens, retirando-lhes o IAJ e piorando o acesso à Porta 65 (alguém sabe onde fica?); pusemos, finalmente, os reformados a contribuir para a riqueza nacional e sustentabilidade da Segurança Social (julgavam que iam ser os únicos a se livrarem dos impostos, ou quê?); aumentei as despesas dos portugueses (aí do continente, diga-se) com as taxas moderadoras, diminuição das contribuições nos medicamentos (aqui também levámos com essa!), encerramento de Centros de Saúde e pagamento de transportes para as distantes urgências. Conseguimos que os aumentos do gás, água e electricidade, transportes e outros bens, de que os senhores nunca mais aprendem a prescindir, fossem acima da taxa da inflação E AINDA POR CIMA, CONSEGUI QUE PORTUGAL FICASSE EM PRIMEIRO LUGAR NA LISTA DO CONSUMO EUROPEU DE CALMANTES!
Espera pelo meu voto! Espera! Sentadinho, hem? Que quando for hora de votar já devo estar bem pedrada com uma série de Xanax! Então não vêem que isto não são horas de estar acordada? Tudo culpa do stress que esta lei me provoca! Lá tive de me levantar para fumar um cigarrinho. Antes que seja proibido fazê-lo na minha casa! Puxa! E, agora, vai um calmante, pois então! Sim, que eu amanhã cá trabalho!

5 Comments:

Blogger Espaço do João said...

Olá Mana.
Aqui estou para dar-te o apoio moral que necessitares. Já fui um fumador inveterado e, sei muito bem quanto custa deixar de fumar. Como já em tempo te disse,deixei de fumar andando com os cigarros no bolso e o respectivo isqueiro. Quando me apetecia um cigarro, levava a mão ao bolso tirava o maço de tabaco e, depois voltava a colocá-lo no mesmo sítio, mentalizando-me que o vício não era mais forte do que eu. Custou-me imenso mas, valeu a pena o esforço. Muitas das vezes dava-me uma paranóia mas sempre tentei superar.Diziam que ia engordar mas, como sou ruim, tal não aconteceu.Foi um sacrifício enorme mas, quanto a mim valeu. Quando dizes que as minorias também teem os seus direitos, é bem verdade mas, agora vê o outro lado da questão; será que sou obrigado a ser fumador passivo? Isto não se trata de fundamentalismos,. É como a Anarquia; ser Anarca não quer dizer que não se respeita a vontade dos outros, mas sim saber onde termina a sua liberdade e,começa a liberdade dos outros. Os maiores anarcas que existiram no mundo (terra) foi Adão e Eva. Beijinhos e perserverança João

29/1/08 20:01  
Blogger Espaço do João said...

Quanto ao Sócrates,não sejas mázinha, pois ele até já mudou o Ministro da saúde. Tudo isto por causa da nossa saúde e, dos não fumadores.

29/1/08 20:41  
Blogger anete joaquim said...

Essa, de facto, foi a grande novidade do dia e só prova que o povo lá tem a sua força, quando mete mãos à obra e que a estratégia para a saúde estava errada. Esperemos que melhore. Quanto aos direitos dos não fumadores, dou-te toda a razão. Nunca fumo em casa ou carro de não fumadores, mas, de facto, em público, nem sempre se respeita esse lado. O que defendo, por isso mesmo, é a separação de espaços, dando às duas partes a oportunidade de opção. No local de trabalho não foi preciso nenhuma lei para que os fumadores deixassem de fumar na Redacção. Bastou o director, há cerca de quatro anos, perguntar aos fumadores se não se importavam de fumar no corredor. Todos aceitaram imediatamente. A questão agora não tem a ver com a empresa, mas com a lei que proibe o fumo no interior do edifício. Tenho a certeza de que nenhuma empresa gosta de ver os seus empregados à porta, a fumar.
Quanto às formas de conseguir deixar de fumar... Isso é que já é mais difícil. Um dia será!
bjs e obrigada pelo apoio.

29/1/08 22:43  
Blogger anete joaquim said...

Essa, de facto, foi a grande novidade do dia e só prova que o povo lá tem a sua força, quando mete mãos à obra e que a estratégia para a saúde estava errada. Esperemos que melhore. Quanto aos direitos dos não fumadores, dou-te toda a razão. Nunca fumo em casa ou carro de não fumadores, mas, de facto, em público, nem sempre se respeita esse lado. O que defendo, por isso mesmo, é a separação de espaços, dando às duas partes a oportunidade de opção. No local de trabalho não foi preciso nenhuma lei para que os fumadores deixassem de fumar na Redacção. Bastou o director, há cerca de quatro anos, perguntar aos fumadores se não se importavam de fumar no corredor. Todos aceitaram imediatamente. A questão agora não tem a ver com a empresa, mas com a lei que proibe o fumo no interior do edifício. Tenho a certeza de que nenhuma empresa gosta de ver os seus empregados à porta, a fumar.
Quanto às formas de conseguir deixar de fumar... Isso é que já é mais difícil. Um dia será!
bjs e obrigada pelo apoio.

29/1/08 22:43  
Anonymous Anónimo said...

Ola
Anete inspirada e fluente na escrita.
É um assunto que está a dividir as pessoas...
Mas não quero a Anete deprimida. Força.
Um grande abraço
Mr

30/1/08 01:04  

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